Bem Vindos...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Fim da Linha.


Com os solavancos do Jipe, eu não fiz mais do que fechar os olhos. Prosseguimos no mesmo ritmo até um barulho de freio nos parar. Ainda com os olhos fechados eu pude ouvir a Lala saindo do Jipe e andando até a minha porta. Fui esperta o bastante para sair de perto antes dela abrir minha porta e me arrancar do carro.
-Senta ali.
A luz do sol me incomodou por um tempo e depois ficou normal, Lala havia apontado para um monte de pedras achatadas que serviriam de bancos para mim. Ela andou até a picape e pegou sua mochila preta antes de voltar com um olhar um tanto incomodado para mim.
-Desculpa te dar tanto trabalho.
Ela me encarou.
-Não, não é bem assim dona Bia. Você tá fazendo a parte mais difícil dessa viagem louca que você inventou. Tá toda quebrada, o seu ombro ainda não está bom e você lutou com um monte de soldados pra nos tirar das mãos daquela maluca. Bia, eu nunca conheci alguém tão suicida quanto você.
Eu sorri.
-Eu sei.
Ela sorriu e começou a trabalhar, pegou algodão e um pouco de álcool para passar nos ferimentos. Doeu, mas depois de levar um tiro, alguns chutes, quase ser estrangulada, vários arranhões e cortes, alguns hematomas sérios e uma possibilidade de estar um caco emocional, isso não foi nada. A parte mais difícil foi o corte profundo no meu braço direito. Ela precisou de linha e agulha para fechar, e ainda colocou uma gaze  por cima. Se eu continuasse nesse ritmo, estaria quebrada em poucos dias. Depois de me deixar toda suturada, Lala foi ate Lucas que também não estava tão inteiro.  Ela estava certa, eu estava na parte mais difícil dessa jornada, claro que não me incomodava, de modo algum, eu me responsabilizo total e completamente por meus amigos. É só que, e se eu estiver bancando a durona e me der mal no final? O que eles vão fazer?
-Bia?
Tatz, Pammy e Iara vieram falar comigo.
-Oi meninas.
-Você tá legal?
-Um pouco machucada e dolorida, mas vou ficar bem.
Elas sorriram.
-É, não é fácil te derrubar né?
-Não mesmo!
Elas continuaram conversando enquanto eu fui falar com o Phe.
-Preciso falar com você.
Ele parou de arrumar as malas na traseira da picape e se virou.
-O que aconteceu?
-Não, relaxa. É só que tinha alguma coisa com aqueles soldados daquela mulher maluca lá atrás.
-Como assim?
-Ela jogava um jogo, um jogo doentio e elaborado que deve ter levado meses até ficar pronto. Ela nos colocou dentro de um círculo formado por seus soldados, dois atacavam cada um e a cada soldado morto dois o substituíam. A lógica não é difícil, o jogo não foi feito para ser ganho, o problema é que quando atiramos naqueles soldados, eles não morriam.
Ele continuou me encarando.
-Mas se fossem zumbis eles...
-É isso que eu to querendo dizer. Aconteceu alguma coisa na cidade enquanto a gente fugia, e eu preciso descobrir o que foi antes que o envolvido com isso tudo, se pronuncie.
-Certo, mas a  gente não pode voltar.
-Não, não podemos, mas a casa da praia é movida por um gerador á Etanol, o que temos de sobra, eu acho.
-Não é bem assim. Temos duas garrafas que vão dar para os próximos vinte quilômetros se tivermos sorte. Esses carros não são muito, ecológicos.
-Entendo. A gente precisa resolver isso.
Antes que eu pudesse me virar ele falou.
-Se o que você disse é provável, esse apocalipse não é tão mortal assim. Veja, os soldados se comunicavam e obedeciam ordens. Isso não é um ponto totalmente negativo.
-Eles se comunicavam e obedeciam ordens de uma completa maluca, o que sugere que são treinados para isso, o que nos leva para um apocalipse mais mortal do que se estivéssemos falando de zumbis moribundos que só se importam com seu almoço.
-Certo.
-Certo.
Eu fui até o Jipe e parei um pouco para pensar onde estávamos, Anne veio comigo.
-Estamos no caminho certo mas, muito atrasados.
-Eu sei. Não vamos passar outra noite na estrada, eu vou chegar naquele condomínio hoje.
-Então é melhor se apressar, são quase quatro da tarde agora.
Ela sinalizou um relógio de pulso que estava usando.
-Certo, reúna todo mundo por favor. Precisamos esclarecer algumas coisas.
Assim que todos estavam perto o bastante para me ouvir, eu falei.
-A situação é a seguinte. Temos duas garrafas de combustível o que vai nos levar até no máximo vinte quilômetros daqui, nossa sorte, a entrada do condomínio fica a pelo menos quinhentos metros, mais um quilômetros de trilha por entra as montanhas e alguns metros até a casa. Dá pra chegar.
-Qual a notícia ruim?
-Não temos disposição, treinamento nem vontade o suficiente para limpar aquela casa hoje. Eu to toda machucada e quero muito, muito uma cama decente pra dormir.
-O que você propõe?
Eu apontei para a placa escondida pela vegetação.
-Bem-vindos á pousada Bella-Vista.
Eles começaram a murmurar alguma coisa sobre perigos e zumbis então eu os interrompi.
-Essa pousada tá fechada a pelo menos vinte anos, o que nos dá passe livre pra invadir sem incomodar ninguém, outro ponto forte é que ela é totalmente cercada por muros altos, fica dentro de um bosque com muitas árvores e não é fácil de entrar. Um zumbi não conseguiria chegar até o portão, quem diria perto da casa. É seguro e totalmente confiável.
-Qual a notícia ruim Bia...
-Como ficou vinte anos fechada, eu duvido que as instalações sejam boas, e tenho minhas dúvidas sobre ratos morando lá dentro.
-Ah, ratos!
-Como se eu fosse me importar!
-Que nojo...
-Ratos? Gente, acabamos de encontrar com zumbis com as tripas para fora, passamos a noite na floresta, fomo atacados por soldados malucos e uma mulher doida de pedra. E você se preocupam com ratos?
Eu sorri, nada como a lógica para colocar sentido as coisas.
-Tá né!
-Se for assim...
-Eu topo.
E então entramos nos carros, seguindo pela trilha abandonada que levaria até a pousada Bella-Vista. O caminho, sinuoso e irregular, demorou um pouco mais do que esperávamos, tudo porque uma árvore muito velha estava caída pela trilha. Depois disso seguimos o caminho de paralelepípedos até o grande portão de ferro. Ele estava um pouco caído, todo enferrujado e não duvido que com apenas um toque ele desmonte inteiro, mas estava pronta para uma bela noite de sono e um descanso muito merecido.
-Bia?
-Eu.
-Eu não confio muito nesse lugar não.
Saímos dos carro para ajudar no portão enquanto a Tatz andava comigo.
-Relaxa Tatz, passar a noite aqui vai ser moleza.
Ajudamos a abrir o portão e passamos com os carros. O lugar era maravilhoso, cheio de árvores, uma trilha de pedras, um lago, alguns bancos de jardim e muitas flores. Parecia que mesmo com vinte anos de abandono aquilo ainda era um paraíso.
-Uau!
-Uau mesmo! Ola pra esse lugar...
-Gente! Tem piscina!
-Onde?
-Olha lá!
Era a maior piscina que eu já vi na minha vida. Tinha um trampolim e algumas espreguiçadeiras em volta, a grama verde formava um grande retângulo em volta da grande piscina.
-Eu vou querer dar um mergulho.
Eu olhei para a Pammy.
-Tá maluca menina? Se não sabe o que tem lá dentro, e olha que em todos os filmes que vimos ninguém jamais entrou nas piscinas de casas desconhecidas e desabitadas. Vamos ter certeza primeiro está bem?
-Eu quero mesmo é comer. To morrendo de fome.
-E quando é que você não está com fome Phe?
-Quando eu estou dormindo oras!
Eu sorri.
-É, eu também.
-Então vamos entrar, aposto que aí tem uma cozinha.
-Ter eu também aposto, vamos ver se ela já não está habitada né!
Então entramos, tenho que dizer, fiquei impressionada. Estava tudo empoeirado e cheirando a mofo mas a recepção estava muito bem mobiliada e com todos os equipamentos de um hotel. Era tudo muito antigo, eu admito, mas ainda assim.
-Bia?
-Sim.
-O que realmente aconteceu com esse lugar?
Eu não me lembrava muito bem da história. Apenas algumas partes.
50 anos atrás, Fillip Monterey chegou nesta ilha com uma mala e 20 reais no bolso. Ele era um empresário peruano que resolveu sair do país e tentar alguma coisa aqui. Ele não se saiu muito bem nas empresas mas com o dinheiro que conseguiu construiu essa casinha no meio da floresta. Ele não se casou, não teve filhos mas teve uma secretária. Quando ele morreu a secretária tomou conta do lugar, construiu um jardim e passou a morar aqui. Alguns diziam que ela morria de amores pelo chefe mas ninguém sabe. Ela ficou velha e já tinha feito todo o trabalho por aqui, a sobrinha dela esperou até a sua lenta morte pra transformar o lugar pacífico em uma casa noturna pra ela e os amigos se divertirem, a polícia descobriu e fechou o lugar. Bem mais tarde essa sobrinha se casou e precisava de grana, na época os turistas não paravam de vir e então ela abriu a pousada Bella-Vista. Com esse lance a mulher ficou rica e resolver manter o negócio até os anos 90 quando houve a tal razão pro lugar ser fechado. Com a pousada lotada, todos os quartos reservados e tudo indo as mil maravilhas pra tal sobrinha, não havia quarto para mais ninguém. Uma pena  para Pedro Barros, um comerciante qualquer que chegou numa noite de tempestade á pousada.
-Sinto muito senhor, mas estamos com a capacidade máxima já ultrapassada.
-Eu entendo.
Ele deu um sorriso torto, pegou sua maleta e, antes de cruzar a soleira da porta, tocou a aba do chapéu encharcado pela chuva torrencial que caía lá fora.
-Pobre homem...
Eu tinha que correr atrás dele, não podia deixar um ser humano como ele numa tempestade como essa.
-Senhor! Senhor, espere!
Ele deu meia volta.
-Se não se incomodar, temos um quartinho nos fundos que colocamos alguns materiais. Um casal vai embora de manhã, aí o senhor pode ficar com o quarto deles.
-É muita gentileza sua Madame.
-Ah por favor!- Eu sorri- Me chame de Line.
Ele sorriu.
-Me acompanhe, não queremos que o senhor pegue um resfriado.
Depois de acomodar o senhor misterioso no quarto de ferramenta, Elise Moreira foi dormir. Ela, e todos os outros 47 hóspedes foram mortos naquela noite. A polícia descobriu o lugar poucas horas depois do crime, uma menina de oito anos ligou dizendo que havia um assassino na pousada, a ligação terminou com um grito e um barulho de tiro. Foi o maior genocídio que já ocorreu na ilha.

-O maior genocídio de todos os tempos... Aconteceu aqui.
Eles pararam por um instante.
-Legal!
-Olha só Tatz! Vamos dormir num lugar mal-assombrado, dois itens da lista já foram.
As meninas estavam rindo, observando tudo o que poderia ser usado pra causar um assassinato como aquele, facas, candelabros... Tudo no lugar parecia macabro e incrível ao mesmo tempo. Não que a história não fosse triste, o que aconteceu foi horrível, mas agora, vinte anos depois do ocorrido, tudo não passava de algo irreal e imaginário.
-Bia? Mostra pra gente onde exatamente o assassino agiu.
-Depois meninas! Agora eu to mais interessada em comer muito e depois dormir um pouco.
Eu ri.
-Tudo bem, vamos comer então.
Rodamos um pouco o lugar, passamos por toda a recepção, uma ala que supomos ser a lavanderia e uma sala com um amplo espaço e um rádio velho, até que chegamos á cozinha. Uma porta dupla com janelas circulares, a cozinha tinha duas bancadas de metal e um chão branco.  A primeira bancada tinha dois fogões embutidos e uma pia, a segunda ficava bem no meio da cozinha e provavelmente era usada para preparar os  pratos.
-Bem, vamos trabalhar.
Fomos aos carros, pegamos o resto dos suprimentos que haviam drasticamente diminuído, ou o prazo de três dias estipulado estava muito certo. Agora tínhamos dois pacotes de macarrão, uma lata de óleo, algumas barrinhas de cereais e eu não sem quem teve a ideia brilhante de trazer milho e ervilha enlatados. Depois de deixar tudo organizado na cozinha eu expulsei todo mundo de lá.
-Lala?
-Oi.
-Vamos fazer mágica. Temos que nos virar com isso aqui.
-Tá legal.
Eu achei dois aventais com o logo da pousada e coloquei um, não por medo de sujar a minha roupa, que agora estava rasgada, suja de sangue e um tremendo farrapo, mas é legal cozinhar de avental. Prendi o cabelo num coque frouxo e comecei a trabalhar. Incrivelmente, ainda havia água encanada nas torneiras e um botijão de gás cheio nos fogões, seria mais fácil do que eu pensava. Por precaução, fervi a água antes de usá-la para a panela do macarrão, a Lala estava cuidando de abrir os enlatados e arranjar travessas para colocar tudo aquilo no final.
-Olha, macarrão sem gosto com milho e ervilhas não é bem meu favorito, mas é muito bem vindo.
Eu sorri.
-Claro, eu bem que queria um churrasco, mas estou com tanta fome que isso aqui vai servir.
Demorou um pouco, não estávamos acostumadas a mexer num fogão como aquele, e além do mais, precisamos tirar todo o pó das mesas que juntamos antes de podermos nos sentar.
-Bom, é isso gente. Acabamos com todo o nosso estoque de comida pra três dias.
-Hum!
-Oba!
-É, vamos comer gente.
Eu comi muito, como não comia há dias. Estávamos tão famintos que a Tatz comeu sem reclamar, e isso, é um verdadeiro milagre. Depois de comer cada um foi pegar sua mochila e escolheram um quarto para ficar. Eu não achava uma ideia muito boa, a casa tinha três andares, uns quatro quartos por andar, seria muita coisa para cobrir caso alguma coisa acontecesse. Eu peguei um quarto no primeiro andar, a Iara se colocou atrás do balcão quando fomos pegar as chaves.
-O que gostaria?
-Uma chave.
Eu ri, ela fazia um sotaque esquisito para falar. Ela se virou e pensou por um segundo antes de me dar uma chave com um babante amarrado, na chave o número 01 estava escrito. Ela tocou a sineta e pulou de volta para o nosso lado com outras nova chaves.
-Vamos ver como esta espelunca está.
Subimos as escadas e cada um parou na frente da porta indicada nas chaves. Eu coloquei minha chave na fechadura e girei, a porta se abriu com um rangido me mostrando um quarto pequeno com o ar abafado. Não tinha nada de especial, o chão era um carpete bolorento que algum dia poderia ter sido bege, as paredes tinham um papel decorativo de muito mal gosto. Havia uma cama de casal, um criado mundo com uma gaveta e uma janela ao lado de uma porta que eu supus ser o banheiro. Deixei minha mochila no chão e sentei na cama depois de tirar um pouco do pó. Resolvi abrir a janela para entrar um pouco de ar. Depois disso eu tirei a colcha levantando uma nuvem de pó que seguiu seu caminho para fora do quarto. Eu arrumei a cama e depois me sentei. Porque eu estava tão irriquieta? Resolvi dar uma olhada no banheiro. Nada de especial também. Um espelho embaçado, uma privada e uma banheira. Eu pensei em como seria bom tomar um banho agora, tirar essa roupa toda suja de sangue e relaxar um pouquinho. Eu girei a torneira enferrujada para a esquerda, primeiro nada aconteceu, depois ouve um barulho de canos se mexendo. Algum tempo depois a água começou a pingar, depois a sair em uma linha fina e finalmente a sair de um modo normal da torneira. Eu sorri, que sorte eu tinha de lembrar desse lugar.
Depois de algum tempo no banho eu resolvi sair, na minha mala havia uma toalha e algumas coisinhas mais que a gente precisa. O que foi algo muito esperto da minha parte ter trazido. Eu vesti minha calça jeans e minha camiseta branca com uma nota musical bordada. Calcei os tênis e resolvi andar um pouco. Ao sair do quarto dei de cara com uma Pammy de cabelo molhado.
-Bia! Você não vai acreditar, os banheiros têm...
-É eu sei!
Ela riu.
-Foi muita sorte a gente ter achado esse lugar, tomara que a gente fique tempo o bastante para dar um mergulho né?
-É, mas eu não prometo nada. Lembra do que aconteceu na loja de carros?
-É eu lembro...
-Mas ainda da tempo para um mergulho.
-Vou chamar o pessoal. Eu vou trocar de roupa.
Tá, eu não tinha realmente pensado que eu ia encontrar uma pousada velha com uma super piscina para dar um mergulho, mas eu trouxe um biquini. Só que eu não iria sair por ai com a barriga de fora e as pernas á mostra. Me enrolei na toalha e desci. Ao chegar lá em baixo, todos estavam se divertindo, e o sol prestes á se por. Eu fiz uma prece silenciosa para que esse pequeno momento durasse um pouquinho mais.

sábado, 5 de maio de 2012

Fora de Rumo Parte III

Caroline abriu o portão e os homens foram entrando na casa branca desgastada. Depois foi a nossa vez. A casa em si era comum, móveis velhos e empoeirados, alguns porta-retratos com os vidros quebrados e as fotos em preto e branco, o primeiro cômodo a sala, era pequena e mal iluminada já que toda a iluminação presente era proveniente de velas. Me perguntei se tantas velas não causariam um incêndio. Passamos pela cozinha que parecia tão abandonada quanto a sala e Caroline abriu a porta para o quintal. Ela estava com a roupa militar que os homens que a acompanhavam estavam usando, só que o seu cabelo loiro estava preso em um rabo.O quintal era uma  zona de poucos metros com um gramado verde e alguns canteiros com legumes. A área toda era cercada e eletrificado, o que não era tão eficaz já que a eletricidade parecia não chegar ali há muito tempo. Passamos pelo canteiro de cenouras, o que reconheci por uma placa pintada á mão que tinha o desenho do tal legume. Poucos metros dali havia uma casinha de cachorro, o teto pintado de vermelho, o nome Max pintando em letra cursiva com tinta preta. Essa imagem me lembrou da minha cadelinha, que eu deixara morar com meu avô no sul. Eu desviei o olhar, já era muita coisa pra se pensar, não precisava me atordoar com outras lembranças. Caroline esperou até que o homem, que para mim parecia seu braço direito, levantasse uma porta de madeira que estava no chão, daquelas que levam para porões nos filmes. Alguém ficou ombro a ombro comigo.
-Você não acha tudo isso estranho demais?
Lucas estava andando enquanto sussurrava ao meu lado.
-Acho, mas por enquanto a gente só olha. Eu só vou ficar tempo o bastante pra não causar nenhuma má impressão. Enquanto isso mantenha isso aqui - eu apontei para a mochila que ele trazia da delegacia- bem longe das mãos de qualquer um.
Ele concordou uma vez com a cabeça e se afastou um pouco, mas não tão longe.
Os homens que acompanhavam Caroline desceram primeiro, ela foi depois de lançar um " Venham depois de mim" para nós. Eu estava na beira da escada escura que nos levaria até um lugar que não sabíamos.
-Eu acho melhor você não entrar aí.
Eu olhei para Lucas que estava encarando a beira da escada.
-Ei, causar uma boa impressão se lembra? Eu vou, vocês esperam aqui.
Ele segurou meu braço.
-Nada disso. Você não vai descer lá sozinha e desarmada. Eu vou com você.
Eu me virei para o grupo, eles estavam colados nos ombros dos outros como se eles se recusassem a ir mais longe.
- Eu vou descer, só para agradecer a hospitalidade de Caroline e dar o fora daqui. Depois podemos seguir com a viagem até a praia.
Eles concordaram. Gabe veio até mim.
-Você vai precisar disso.
Eu sorri, ele me entregou a arma.
-Obrigada.
Me virei para descer a escada, estava apenas á um passo da escuridão quando ouvi a voz de Caroline.
-Vamos criança, não temos o dia todo.
Olhei para Lucas que me olhou de volta. Tínhamos que entrar, ou eles nos perseguiriam até Deus sabe onde. Eu desci, ciente da mão de Lucas no meu ombro, ciente da arma carregada em minhas mãos e pronta para o que quer que acontecesse.
Não estava pronta. Quando cheguei no último degrau, entrei num ambiente tão claro que pisquei várias vezes para que meus olhos se acostumassem. Daí alguém me puxou para a direita, obviamente para me separar do Lucas. Eu ainda via tudo um pouco embaçado quando abri completamente os olhos. Todos os homens que acompanhavam Caroline estavam em círculo ao meu redor, ela estava sentada em uma cadeira dourada com estofamento vermelho, claramente se divertindo com a cena. Lucas estava em algum lugar no meio dos homens, todos apontavam facas e pedaços de madeira e ferro. Caroline riu.
-Seria muito injusto deixá-los armados contra você criança. Aposto que você sabe algumas coisas. Nunca teria passado pelo nosso comboio com aquele bando de toupeiras que está no seu grupo. Ah, não se preocupe com eles criança, eles serão muito bem hospedados. Assim como os outros.
-E o que você planeja? Me forçar a lutar com seus homens até que eu morra? E depois vai fazer o que?
Ela ponderou um pouco.
-Vou fazer você ver seus amiguinhos morrerem, um a um, isso não será divertido criança?
Eu avancei nela, infelizmente seus homens colocaram-se ombro a ombro para protegê-la. Ela riu de novo.
-Sim! Isso será muito divertido.
Ela estalou os dedos e alguém empurrou Lucas para o meio do círculo formados pelos homens de Caroline. Ele caiu de joelhos eu fui ajudá-lo a levantar, assim que ele ficou de pé, dois homens de Caroline vieram em nossa direção. Um deles ergueu a barra de ferro tentando me acertar, eu pulei para a esquerda, ele continuou avançando. Me perseguindo até eu ficar encurralada. Sabia que não podia chegar perto da barreira formada pelos homens de Caroline, e avançar contra aquele soldado seria certamente um suicídio. Eu apontei a arma para ele, mas o homem não parou. minha última escolha foi atirar. Ele caiu no chão ainda tentando chegar em mim. O buraco do tiro, manchava de sangue o ponto vital de qualquer humano.
-Lucas!
Ele estava tentando alcançar uma arma que deixaram no chão quando viu o sangue e o zumbi domesticado ainda avançando contra mim.
-Na cabeça!
Eu disse.
-Na cabeça!
Ele concordou. Assim que o zumbi caiu no chão, outros dois vieram contra mim. Eles estavam mais rápidos e motivados do que o primeiro. Lucas já estava com quatro o atacando, ele havia disparado apenas duas vezes. Eu continuava atirando nos zumbis de Caroline, algumas vezes errava o alvo mas acertava alguém da barreira quase-humana de Caroline. O zumbi não se mexia, não reagia. Assim que eu matava um dos soldados dela, outros dois corriam da barreira que se estreitava cada vez mais. nos deixando sem tempo para pensar em algo que não fosse atirar e correr. Então eu entendi, isso tudo era apenas um jogo para Caroline, um jogo doentio e elaborado. Para cada soldado morto, outros dois vinham o substituir, de modo que a barreira diminuía toda vez que mais soldados avançavam. Estávamos no ponto de que Lucas estava lutando com seis soldados de Caroline e eu com quatro. Um barulho. Click-Click. Eu não tinha mais balas, não havia carregado a arma desde o pátio dos carros e a deixara nas mãos de Gabe que podia muito bem ter disparado algumas vezes. Larguei a arma. E corri na direção dos zumbis, um deles estava com uma faca, o outro com um pedaço de metal afiado e os outros dois estavam desarmados. Tentei derrubar um zumbi, agachei no chão e dei uma rasteira no zumbi que caiu e bateu a cabeça com tanta força que até eu teria morrido. Ele não se levantou, infelizmente outros dois correram na minha direção. Eu estava tentando fazer o mesmo com outro zumbi quando senti a lâmina da faca no meu braço direito, dei um breve grito e me virei bem a tempo de desviar de outro golpe. Eu segurei a mão do zumbi que deixou cair a faca, eu a peguei rapidamente e cravei-a em sua cabeça. O que não foi nada bonito de se ver. O sangue espirrou no meu rosto e a faca ficou presa lá de modo que eu estava desarmada outra vez, enquanto eu tentava retirar a faca dali algum zumbi, provavelmente o que estava com o pedaço de metal afiado, me acertou nas costas, eu caí por cima do corpo do zumbi, era tarde demais para me levantar ainda assim o fiz, eles continuavam atacando, minhas mãos, minha coxa, meu braço já cortado e minha testa. Eu estava de joelhos, dois deles me levantaram  e um deles me deu um soco na barriga. Eu fiquei sem ar, estava exausta, machucada e via pontos roxos em todo o lugar. Caroline bateu palmas duas vezes. Eles levantaram meu corpo de modo que eu ficasse quase em pé, mas estava cansada demais para olhá-la, ou para olhar Lucas. Minha cabeça estava abaixada, eu estava quase caindo dos braços dos zumbis.
-Ora ora criança, até que foi uma bela diversão que você me trouxe,hã!
Ela se levantou, eu vi os seus coturnos militares passarem por mim.
-Bom, até que você leva jeito.
Eu tentei olhar, ela estava parada na frente de Lucas, que estava no chão, arfando de cansaço, com algo prateado em mãos. Todos os zumbis que estavam o atacando, estavam parados imóveis do seu lado. Ele tentou de algum modo atacar Caroline que apenas deu um passo para trás e fez um barulho de reprovação com a boca.
-Não não criança, não devemos tratar os mais velhos assim.
-O que me importa sua vaca!
Ela deu uma risadinha. Fui arrastada até ela. Caroline pegou meu rosto com as duas mãos e deu uma boa olhada.
-Uma pena mesmo, desperdiçar um rosto bonito como o seu.
Me deram um soco. O gosto de sangue ficou na minha boca, e não era só o gosto havia muito sangue na minha boca. Eu cuspi, também não foi nada bonito de se ver. O sangue vermelho fez uma pequena poça no chão branco. Minha cabeça doía, a boca sangrava, tinha algum lugar do meu corpo que ardia muito e eu estava cansada, muito cansada. Caroline continuava falando com Lucas.
-Viu,criança? Tudo o que você fizer vai acabar com a pobrezinha aqui- Ela apontou para mim- então, não faça nenhuma gracinha.
Caroline saiu da frente dele. Lucas estava ajoelhado, seu rosto estava com alguns pequenos cortes, ele estava quase chorando, foi o bastante pra me deixar com raiva. Os zumbis que me seguravam mal viram o que os acertou, eu já estava correndo. Caroline só soube que eu estava atrás dela quando sua cara foi de encontro ao chão, eu a derrubei e estava em cima dela com o objeto brilhante que Lucas estava segurando. Em algum ponto lá atrás eu devo ter pego, o objeto era uma adaga mais ou menos do comprimento da minha mão, com uma pedra vermelha incrustada. A adaga brilhou quando eu a levantei e ameacei matar Caroline. Ela não fechou os olhos, não implorou por sua vida, não fez nada além de ficar com um sorriso malicioso na boca.
-Vamos criança, mate-me.
Eu a encarei.
-Você estava esperando por isso não é? Sua doente!
Ela deu uma risada histérica, eu havia perdido a raiva em mim. Não tinha como matá-la agora. EU não conseguiria. Caroline parou de rir, meus joelhos estavam pressionando os seus braços contra o chão frio, seu movimento com a mão foi passou quase despercebido. Quase. Quando seus zumbis pegaram Lucas, a adaga já estava em seu pescoço.
-Mande soltá-lo.
Ela apenas riu.
-Anda!
Eu apertei a adaga até que a linha escarlate começou a sair.
Ela berrou.
-Soltem! Soltem ele!
Eles não o fizeram. Infelizmente era tarde demais para Caroline. A adaga deslizou tão facilmente por seu pescoço que, de início achei que nada tivesse acontecido, mas aí gotas de sangue vermelho começaram a escorrer, depois linhas, e depois disso o sangue começou a espirrar. Os olhos de Caroline se fecharam, e ela parou de se debater. Ela havia morrido, incrivelmente os seus zumbis domesticados pareciam fazer o mesmo. Eles caíam inconscientes enquanto o sangue vital de Caroline formava uma grande poça no chão.
-Vamos sair daqui!
Lucas e eu corremos escada acima, o mais rápido que conseguíamos, com as pernas machucadas e os múltiplos ferimentos. Lá em cima, as coisas estavam melhores. Eles pareciam ter cuidado muito bem dos poucos soldados que Caroline mandara.
-Vamos dar o fora daqui!
Eles se apressaram em nos acompanhar. Assim que entrei no carro pude sentir a gravidade dos ferimentos. Tudo doía, tudo ardia, tudo rodava e eu ainda via os pontos roxos em todo o lugar.
-Vamos dar uma olhada nisso depois.
Eu ouvi a Lala dizer, e então, tudo virou escuridão.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Fora de Rumo Parte II

Um grito, me arrependi assim que pude escutar o som que eu mesma havia produzido. Não havia motivo para gritar,claro, algum maluco que morava numa cabana na floresta estava criando zumbis,mas fora isso, não havia motivo algum para gritar. O sol estava um pouco mais forte agora, com sorte seriam apenas 7 da manhã. Depois de algum tempo estavam todos os meninos ali, nenhuma menina. Sério. Por um momento eu fiquei muito ofendida, por que diabos nenhuma menina veio pra cá enfrentar qualquer tipo de perigo que houvesse? Como se meus pensamentos estivessem sido falados, Lala, Tatz, Anne e Pammy saíram da floresta.
-O que aconteceu?
-Você tá legal?
-Fala com a gente?
-Por que você tá sozinha na floresta?
-Tá tudo bem?
Meu corpo se virou instintivamente para as centenas de zumbis que murmuravam lá em baixo, eles me acompanharam, soltando o ar, quando a cena finalmente os alcançou.
-Como eles vieram parar aqui?
-É óbvio que alguém os trouxe pra cá!
-Quem seria a criatura que criaria zumbis?
Ao longe, perto da casinha no meio do nada, a caminhonete estava estacionada, a cor vibrante fez com que eu me lembrasse e os meus joelhos fossem de encontro direto com o chão. Alguém me ajudou a levantar, disseram alguma coisa mas eu não escutei. Se a caminhonete estava aqui, então ele também estaria, a criatura sem coração que rouba corpos das pessoas em luto. A criatura horrível que sequestrara um corpo também criava zumbis como se fossem animais de fazenda. Eu estava me dirigindo ao acampamento que montamos, apenas para resgatar um objeto e me colocar na trilha que levaria ao sequestrador de corpos. O termo parecia engraçado, parecia o nome de um filme de terror muito ruim. Assim que me certifiquei que a arma estava carregada, me coloquei na trilha que daria para a casinha com chaminé. Alguém me parou, era a Tatz.
- O que você tá pensando em fazer?
-Um pequeno acerto de contas. Talita aquele é o carro do cara que levou o corpo dele!
-E matá-lo vai dar em quê? Não vai trazê-lo de volta, e não vai fazer com que seus gritos cessem! Não vai adiantar ir até lá e enfrentá-lo. Você não o conhece!
-Nem você!
Nesse momento eu vi algo no rosto dela, algo que estava escondido. Sua expressão não foi mais chocante do que as palavras que ela me disse em seguida.
-Na verdade... Eu o conheço.
Ela suspirou, como se guardasse isso há muito tempo. Eu parei, não conseguia formar pensamentos, palavras ou gestos tudo saía como um balbucio apavorado e incrédulo. Como ela conhecia o sequestrador que havia aparecido na tv 3 meses antes? Como ela conhecia o cara que tinha levado o corpo dele? Ela viu minha expressão e segurou meu braço.
-Venha, a gente te conta.
-A gente?
Ela ficou em silêncio. Todos se reuniram em volta do Jipe amarelo, ela me forçou a sentar no capô.
-Olha, eu sei que parece muita coisa. Mas não é, eu juro. É que na época você tava tão estranha por causa do castigo e tudo o mais....
-Talita. Sem enrolar.
-Tudo bem... Lembra daquele sequestro que apareceu na televisão uns meses atrás?
Eu pedia por favor para que ela não dissesse as palavras.
-Eu fui sequestrada. Me desculpa Bia, a gente queria te contar, mas é que você tinha acabado de sair do castigo, ainda ficava falando na sua vingança, ainda estava abalada por causa da prisão. Não queríamos que você ficasse preocupada.
-Então você escondeu de mim! Eu sou sua melhor amiga Tatz, a gente ria e contava tudo uma pra outra, por mais idiota que fosse! E você me esconde uma coisa dessas!
Eu estava gritando, não queria, mas era como se não fosse eu mesma ali, sentada berrando pra floresta. Desabafando. Assim que eu terminei eles ficaram em silêncio.
-Quem mais sabia?
Ela hesitou.
-Pode falar, a pior parte já foi certo?
-O Phe ajudou no resgate e além da minha família e da Pammy...
-Continua.
-Ele tinha pego a Iara também.
Eu me levantei, estava nervosa, cheia de fúria e com os sentidos mais aguçados do que nunca. Movida pela raiva eu fiquei surda, quer dizer, eu ouvia vozes abafadas, pedindo que eu voltasse mas eu não podia. Não queria voltar. Alguém falou " Não seria melhor tirar a arma da mão dela?" Só agora eu percebi que a segurava com força, a larguei no chão. Do jeito que estava poderia acabar com qualquer um apenas com as mãos. Alguém me seguia, não foi cuidadoso o bastante para abafar os passos que cortavam galhos e faziam baques surdos na terra. Eu parei na grade, as mãos apertando o ferro com tanta força que eu poderia parti-lo. Poderia partir qualquer um. Acontece que depois que eu fui quase presa, tinha acessos de raiva frequentemente, quebrava copos, socava as paredes. Minha mãe me mandou fazer seções semanais com a psicóloga. Ela dizia que eu guardava muitas coisas para mim mesma, e era verdade. Desde pequena eu tentava resolver os problemas de todo mundo e os meus sozinha, quando algo dava errado eu raramente confiava em alguém pra contar, ou pra pedir ajuda. Conforme eu fui crescendo as coisas foram se acumulando, virando uma verdadeira bola de neve. Ela concluiu que a minha prisão foi a gota d' água, que agora eu estava sendo movida pelo que eu planejava fazer com o culpado daquilo. Acontece que faz mais de 2 meses desde o meu último acesso, quando meu irmão rasgou o meu livro preferido no meio porquê ele achou engraçado. A marca da minha palma nas costas dele permaneceu ali por algumas semanas. E tão rápido quanto a situação começou, ela terminou. Eu já não era tão agressiva e minha palma não ficava nas costas de ninguém. Sem perceber eu já estava mais calma, havia afrouxado o aperto da grade e estava olhando para a fumaça que saía da chaminé.
-Tá legal?
Eu me virei, Gabe estava ali, encostado numa árvore, me encarando.
-Não.
Ele riu.
-É, eu imaginei.
Ele estava me fazendo ficar com raiva de novo, eu queria ficar sozinha, como sempre fazia.
-Olha, eu sei que tudo isso não é muito legal, e eu sei o quanto você queria socar alguém, mas fazer as coisas de cabeça quente não é muito esperto.
-Agora você parece a psicóloga, ou a minha mãe.
Nós dois rimos.
-Viu, agora que você já ta melhor, vamos voltar pra lá. Eles querem voltar pra estrada o quanto antes.
Andamos de volta em silêncio, era estranho voltar pra mesma cena que eu deixei. Todos em círculo me encarando, não era algo legal de se enfrentar. Antes que alguém falasse alguma coisa eu pude dizer.
-Não vou deixar esse maluco á solta.
Eles continuavam me olhando.
-Além do cara ter sequestrado vocês duas, ter levado um garoto morto, e ter proporcionado a cena mais embaraçosa da minha vida, ele cria zumbis. Cercados e aglomerados como se fossem bois. Eu aposto que o cara tem algumas respostas sobre toda essa loucura que está acontecendo.
Eles se entreolharam, eu estava certa. Quem diabos criava zumbis? Algum doente com certeza.
-Ei...
Gabe estendia um objeto preto e um pouco sujo de terra.
-Você vai precisar disso.
A arma, carregada e mais pesada do que eu me lembro, me lembrou de coisas que eu queria esquecer. Toda a cena, o sangue, o tiro e os olhos e as mãos estendidas para mim, me acertaram como se estivessem acontecendo ali mesmo.
-Não... Eu ainda não estou pronta pra atirar de novo. Pode ficar.
Ele recolheu a arma e sorriu.
-Vamos nessa então!
O plano era o seguinte, achar um caminho até a casinha e pedir algumas explicações para o maluco que criava zumbis e de repente o plano não parecia muito certo, não parecia muito elaborado, não era a minha cara.
-Gente.
Eles olharam para mim, a maioria estava entrando no carro.
-Não vamos fazer isso, a gente não faz ideia de com quem estamos lidando, a gente não sabe se ele ta armado e tudo isso, vamos direto pra praia.
E eles começaram a bater nas mãos uns dos outros, comemorando alguma coisa. A Tatz veio até mim.
-A gente sabia que se concordasse com você, você iria pensar melhor. Um plano mal elaborado não é bem a sua cara né?
Eu sorri.
-Bem, vocês estavam certos, e eu errada em agir daquele jeito. me desculpa Tatz. De verdade.
Ela sorriu.
-Não faz mal, a gente também errou em não te contar. Se te faz sentir melhor, o Phe queria te contar, desde que eu saí do hospital.
Eu passei o braço pelos ombros dela, algo que fazíamos pra coisas melhorarem.
-Agora, vamos logo para aquela praia, mesmo não gostando da ideia.
Ela riu.
-Vamos então.
E entramos no carro, a vista da chaminé com fumaça não saía da minha cabeça. No Jipe, Iara, Tatz, eu, a Pammy e a Lala, estávamos discutindo sobre o que faríamos ao chegar na casa de praia.
-Olha, a praia das conchas é um paraíso, eu sei. Mas antes de tudo, fica nas entranhas de uma floresta, eu não faço ideia da situação lá. Eu sei que podem haver sobreviventes, e a primeira coisa a fazer, vai ser limpar o trajeto até a casa. E a própria casa.
Elas concordaram.
-Antes de aproveitar o paraíso, seria melhor certificar que a gente ta pronto pra isso, Bia tem alguma delegacia no caminho?
Eu pensei por alguns instantes, a Pammy tinha razão, e se fossem mais zumbis do que poderíamos dar conta? Tínhamos que nos preparar.
-Tem uma depois do Hotel alguns quilômetros antes da entrada pra praia, deve ter alguma coisa lá.
O walkie-talk estava com a Lala e ela logo avisou os meninos no outro carro que iríamos para numa delegacia. Pronto. Pé na estrada, um cd tocando alto e um destino incerto.
O caminho ate a delegacia não foi difícil. A estrada abandonada, o silêncio claustrofóbico, e os passos que dávamos deixava o ambiente desconfortável. Eu iria esperar no carro, não chegaria perto de matar outra criatura até que fosse seguro pra mim e pra minha cabeça que andava totalmente fora dos eixos. Lá fora, sozinha encostada no Jipe amarelo, não pude deixar de notar a terrível sensação de estar sendo observada. As meninas estavam dentro dos carros de modo que só eu estava para fora. Abri a porta do Jipe.
-Ei, alguém ai ta achando alguma coisa estranha além de mim?
A Iara me observou.
-Eles só saíram á alguns minutos, não deve ser nada sério.
-Não. Não é com relação á isso, eu acho que os meninos conseguem se virar com uma delegacia mas, eu sinto que tem alguma coisa errada em tudo isso. Eu digo, desde que eu vi a casinha na floresta, não fomos atacados nem uma vez.
Elas se entreolharam.
-É verdade.
-Talvez seja só coincidência.
Anne estava com os braços esticados,quase se levantando do banco.
-O que foi?
-Eu acho que eu... Tem alguma coisa ali.
Todas nós nos viramos. Anne havia apontado para uma casa branca com janelas quebradas, o portão estava fechado e tudo parecia muito quieto.
-Eu acho que não é nada.
Tatz estava se sentando de novo, as meninas voltaram para a conversa mas eu continuei observando. A casa, com as paredes desgastadas e os portões enferrujados não parecia agressiva. Mas havia algo lá, e estava olhando para mim. No momento em que me virei ouvi o barulho inconfundível de uma arma sendo carregada.
-Corram!
Primeiro elas me encararam como se eu fosse louca, daí ouvimos cerca de 10 armas sendo carregadas ao mesmo tempo, não era coincidência nenhuma. Corri até um muro baixo que ficava á alguns metros do Jipe onde elas estavam. Tudo estava quieto de modo que não podíamos sussurrar. Qualquer mísero barulho podia ser ouvido e declarado como uma ameaça. Eu sinalizei para que as meninas viessem uma a uma, devagar e sem fazer barulho. Funcionou. Até certo ponto. Com 8 meninas se espremendo contra um murinho, era mais que óbvio que algo ia dar errado, mas foi melhor estarmos fora do carro de modo que podíamos correr. Quando a Lala se virou para dar mais espaço para nós, pudemos ver cerca de 10 pessoas em nossa volta. Em cima de árvores, dentro de casas, em baixo de carros e escondidos entre escombros. Todos eles muito organizados, altamente armados e camuflados. Não era coincidência, mas algo neles me dizia que não eram do exército. Eu me levantei com as mãos sinalizando rendição, eles apontaram as metralhadoras, revólveres e tudo o que tinham em mãos para mim.
-Olha, não queremos encrenca, tá legal?
Um homem alto e vestido  com roupa de guerra se aproximou de mim.
-O que um grupo de garotinhas faz no meio do fim do mundo?
Porque diabos os homens se comportavam como se mandassem em tudo?
-O grupo de garotinhas está tentando fugir do fim do mundo.
Ele riu.
-Você sabe o que significa Fim do mundo menina? É o fim, de todo o universo. Não tem pra onde fugir.
-Então você não se importa em nos deixar tentar, não é?
-Na verdade...
Ele foi interrompido. Uma mulher alta e estranhamente forte chegou por de trás dele. Ela estava com dois revólveres, um em cada mão.
-Não nos importamos.
Ela sorriu.
-Meu nome é Caroline, sou a comandante desse grupo de trogloditas aqui.
Ela riu. O homem que se aproximou de mim não achou graça.
-Oi... Então. Meu nome é Bia, eu tive uma ideia uns anos atrás que acabou me trazendo pra cá.
Ela sorriu e estendeu a mão, eu a apertei.
-Você parece uma menina inteligente, Bia. Surpreende-me que um grupo como o seu tenha chegado até aqui. Você vem de onde?
-São Paulo capital. Todas nós na verdade.
Ela se espantou mais ainda e colocou a mão livre, já que tinha guardado o revólver, em meu ombro.
-Nossa! Incrível mesmo. Me diga, como está a situação por lá?
Aos poucos todos foram relaxando, as meninas estavam de pé e apesar de um pouco assustadas, estavam aliviadas por não termos que enfrentar eles.
-Na verdade, quando eu saí, no primeiro dia, a situação estava pra lá de caótica. Não estávamos preparados para tal acontecimento.
Ela abaixou o olhar.
-Entendo.
-Mas os militares pareciam estar fazendo um grande trabalho na estrada que liga a capital até aqui. Bom, estavam fazendo um grande trabalho até chegarmos lá.
Ela sorriu.
-Bom, sugiro que você e seu grupo entrem conosco. Se quiserem ficar mais alguns instantes, adoraria ouvir como oito garotas como você passaram por uma barreira militar.
O homem que havia se aproximado cochichou algo no ouvido dela.
-Sim, eu entendo. Bom, mande os homens arrumarem espaço. Temos convidados. Seremos hóspedes gentis.
Ela sorriu, e ele se desfez da carranca. O que me surpreendeu.
-Ahn... Caroline?
-Sim, criança.
-Tem mais alguns meninos dentro da delegacia, eles estão conosco também.
Ela sorriu.
-Imaginava que teria ajuda pra passar por tudo o que tenha passado. Bom, vamos entrando, suponho que estejam cansadas.
Relutamos um pouco ao seguir a mulher estranhamente forte até a casa branca e frágil. Os meninos haviam saído da delegacia pouco depois com duas bolsas cheias de armas e munição. Caroline me disse que poderíamos ficar e treinar já que imaginava que nem todos sabíamos como atirar. Nada estranho tinha acontecido realmente, o que poderia dar errado?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Fora De Rumo.


Anne, Milly e Colírio estavam no banco de trás comigo, não consegui ver quem dirigia. Mas se o Colírio estava aqui significava que a Jamille estava também. Ou não. Eles começaram a discutir como um bando daqueles estava escondido na floresta. Sério. Não havia sentido em todos aqueles zumbis estarem esperando na floresta. Eu encostei minha cabeça no vidro, ciente de que a arma não estava comigo, eu saí do carro e corri em direção á porta de ferro que agora estava totalmente aberta. O corpo dele estava lá, os braços aberto do lado do corpo, os olhos terrivelmente abertos, sangue por todo o rosto. Eu puxei as mangas, de repente estava muito frio ali dentro. Eu cheguei mais perto, a bala fez um buraco não muito fundo em sua cabeça, eu me abaixei e fechei seus olhos. Não aguentaria olha-los por muito tempo. Peguei a arma e andei de volta, um barulho de porta se fechando fez com que eu parasse, de repente meu coração bateu mais rápido com a falsa impressão de que ele pudesse ter sobrevivido, depois voltou ao estado de depressão que se encontrava antes. Eu voltei correndo, ele não sobreviveu havia mais alguém ali. Quando entrei, não havia corpo, não havia o menino que eu matara porque era necessário. Só havia o sangue, e rastros de que alguém o puxou porta afora. Cheguei bem á tempo de ver um homem alto e moreno carregando o corpo do Vinnicius para dentro de uma caminhonete vermelha. Eu não consegui gritar, a cena era estranha demais. Eu só consegui gravar um detalhe antes do carro aparecer na estrada, eu ví aquela caminhonete vermelha no noticiário 3 meses antes. Algo sobre algum sequestro ou algo assim, o cara era maluco. Tatz e a Pamella chegaram poucos minutos depois que o carro zuniu pela estrada. Elas estavam preocupadas.
-O que você tá fazendo aqui fora sua maluca?
-Alguém levou o corpo dele.
Eu estava em choque.
- Quem Bia? O corpo de quem?
-Do Vinny, um cara levou o corpo dele.
Elas se entreolharam.
-Vamos pro carro, a gente fala com o Phe sobre isso.
Eu as segui, ainda com a cena na cabeça. Quando eu entrei no carro, disseram que eu ia dirigir.
-Bom, já que insistem!
Jamille, Colírio, Anne e Milly estavam no carro comigo. A estrada parecia longa, sem rumo e diferente agora que eu matara alguém, alguém cujo o coração ainda batia, cujos olhos ainda imploravam para que eu não atirasse, cujo as mãos estavam estendidas para mim. As lágrimas começaram a cair e eu só ví a pedra estava no meio da estrada tarde demais para pensar em outra coisa á não ser desviar o carro. Entramos na floresta, o carro passava zunindo pelas árvores mesmo quando o meu pé estava apertando o freio. Estávamos num barranco e só Deus sabe onde iria parar.
-Bia!
Eu olhei para a Jamille que estava agarrada ao banco como se sua vida dependesse disso. Pelo retrovisor, Colírio olhava espantado pela janela, Milly olhava para suas mãos e Anne era a única que parecia estar se divertindo. Isso era estranho. O carro parou, estávamos numa clareira, ás árvores formando um círculo quase perfeito, o céu azul com poucas nuvens era convidativo e agradável. Eu tinha uma certeza, estávamos presos ali em baixo. Saímos do carro e encaramos o lugar, era até bonito. O padrão das folhas, as cores que iam florescendo e ganhando vida conforme o verão se aproximava mais e mais. Estávamos numa espécie de buraco, as paredes de terra ficavam mais íngremes quando estavam mais perto de nós e se aproximavam do nível do asfalto ao subir um pouco mais. Não era fundo, mas o carro não iria subir de jeito nenhum. Tínhamos outro problema, não poderíamos passar a noite no meio da floresta com zumbis á solta.
-Bia!
Alguém gritou meu nome lá de cima, provavelmente a Lala ou o Phe.
-Estamos aqui!
Um momento e responderam.
-Conseguem subir?
-Não tenho certeza de que o carro consegue, mas nós conseguimos!
-Não vai caber todo mundo na Hilux, tenta achar outro caminho!
-Tá legal!
Antes de eu dar o primeiro passo em direção as árvores, o Colírio me parou.
-Deixa que eu vou.
-Tem certeza?
-Tenho sim.
Ele sorriu e saiu andando por entre as árvores. Enquanto isso estávamos presas em um círculo de folhas secas e coloridas, eu me sentei. Não havia como escapar de tudo isso, eu estava cansada e o dial mal havia começado. Alguém sentou do meu lado.
-Ei.
-Ei.
Alguns minutos em silêncio.
-O seu nome é Bia ou Nathalia? É que eu estou meio confusa.
Eu ri, Anne era uma das poucas pessoas que ainda não sabiam o meu nome.
-O meu nome é Beatriz, mas fica muito agressivo então eu digo Bia, mas me traz lembranças demais então eu mudei para Nathalia, um nome que eu sempre gostei.
Ela me encarou por alguns instantes e falou.
-Eu prefiro Bia sabe? Parece mais com você.
Ela riu e depois ficamos em silêncio.
-Como é seu sobrenome mesmo? É que ele é meio difícil de se decorar.
Ela sorriu.
-Tsubaki, mas não é realmente o meu sobrenome. Anne nem é meu verdadeiro nome, é Anna, mas eu prefiro assim. É mais como eu sou.
-E como você é?
-Difícil de se definir, incontente com o que tem e muito temperamental.
Eu sorri.
-Não seria minha definição...
Alguém grita o meu nome na direção onde o Colírio foi. Sem perceber eu já estava correndo e bem perto do lugar minha mente estava cheia de " Ele está em perigo! Eu deixei a porcaria da arma no carro! O que será que aconteceu? Eu preciso ir mais rápido."
Quando eu cheguei ele estava perto de uma trilha de terra, havia um riacho, uma cachoeira e muitas árvores, daqui eu não conseguia ver o céu. Ele estava ajoelhado na perna direita e eu não conseguia ver onde estava o outra perna dele. Algo estava errado, por que ele não estava de pé?
-Aqui Bia!
-Não precisa gritar Colírio já estou aqui.
Andei em sua direção percebendo o que estava errado, o lugar estava com cheiro de sangue e eu ví que ele tinha sido pego por uma armadilha de caça. Algo muito incomum no litoral de São Paulo.
-Ai meu Deus! Não se mexe tá legal! Eu vou buscar ajuda, espera ai...
-Não Bia.
-Não venha com essa menino, eu vou ali buscar ajuda e já volto pra te tirar daí!
-Bia...
-O que foi?
-A estrada fica por ali, o carro deles está á uns vinte metros da entrada.
Ele sorriu.
-Ah, então tá. Fica ai. Eu já volto.
Enquanto subia para a estrada eu só conseguia pensar na perna dele, e no que eu ficava dizendo. "Fica ai..." Como se ele fosse realmente se levantar e fugir de mim. O outro grupo, formado pela Lala, Phe, Tatz, Pammy, Iara, Lucas e Gabe estava discutindo alguma coisa quando eu cheguei.
-Galera!
Eles me olharam e vieram do meu lado.
-Graças a Deus você conseguiu subir.
-Onde estão os outros?
-Eles estão bem?
-Você consegue trazer o carro?
-Gente, o carro está por ali, a saída da clareira é daquele lado e eu preciso que a Lala venha comigo com a mochila dela.
 Eu já estava com a mochila preta e pesada da Lala quando comecei a puxá-la pelo braço.
-O resto de você fica ai!
Eu andei com ela de volta para a cachoeira explicando o que tinha acontecido. A pedra, o carro caindo, o que eles falaram e como o Colírio ficou preso. Quando chegamos ele estava no mesmo lugar que o deixei, ainda preso na armadilha.
-Bom, não é algo que eu tenha aprendido á fazer, mas não pode ser complicado.
Ele estava preso pela calça, a armadilha tinha pego boa parte da calça dele mas pouca parte de sua perna. De onde vinha o cheiro de sangue então?  Assim que cortamos metade da calça do Colírio ele se levantou dizendo para mim que sabia que não era nada sério mas eu parecia estar muito agitada então ele me deixou ir pegar ajuda. Ele riu.
-Não tem graça sabia. Eu achei que era alguma coisa bem séria.
Voltamos para onde deixei o carro, as meninas pareciam preocupadas.
-Calma gente, achei uma saída daqui, podemos seguir com a viagem.
Elas se levantaram.
-Ja tá na hora da gente chegar nessa praia aí né Bia, ai vamos ter chuveiro e cama e comida!
-Se o problema é banho, tem uma cachoeira logo ali naquela direção.
Ela não pareceu gostar da idéia.
-A gente podia acampar por aqui. A viagem até Bertioga vai demorar mais duas horas, chegando lá a gente vai ter que arranjar um lugar pra ficar mesmo, por que não passar a noite aqui?
Anne e Milly estavam de acordo com a ideia, o Colírio pareceu aceitar qualquer coisa que propuséssemos, a Jamille não ficou muito contente com a ideia de dormir nos carros ou nas barracas no meio do mato. No estacionamento de uma loja de usados tudo bem, mas no meio do mato nuca! A Lala disse que precisava pensar e então voltamos com o carro para o encontro com o resto de nossos amigos. Depois de explicar que teríamos que fazer turnos para a vigilância e etc, eles concordaram. Uma noite no meio da floresta era bem melhor do que passar a noite tirando sangue das paredes. Depois de almoçar ficamos conversando, eu aproveitei pra subir numa árvore e olhar em volta. Era definitivamente bonito por ali. Ás árvores, as folhas, as flores e o riacho. Todos os sons faziam do lugar um paraíso, ao pôr do sol alguém teve a ideia de entrarmos na água. Eu tenho sérios problemas com água gelada então só coloquei os pés. Depois jogaram água em mim e eu acabei entrando na brincadeira. A noite chegou logo e já estávamos montando o turno de guarda. Eu iria ser a segunda já que o Lucas se ofereceu para ir primeiro. Arrumamos os carros de modo que se algo acontecesse ficaria fácil para fugir, arrumamos a barraca, algumas pessoas escolheram dormir nos carros e eu quis dormir no capô de novo. Era legal ficar ali e observar como a lua fazia desenhos com as folhas. Depois de algum tempo eu dormi. Estava na mesma sala em que atirei no Vinny horas antes, mas havia algo diferente. O corpo estava ali, do jeito que eu encontrei, mas os olhos estavam fechados e o sangue fazia uma poça do lado dele. Quando eu cheguei mais perto os olhos dele se abriram e brilharam em vermelho vivo, ele havia se levantado e avançava contra mim no pequeno espaço, eu tentava sair de lá mas a porta estava trancada e eu não estava com a arma. Ele iria me morder se eu não tivesse acordado gritando.
-Ei.. Tudo bem?
Alguém estava segurando a minha mão no escuro, eu tinha quase certeza de quem era.
-Tudo.. Tudo bem sim.
-Tem certeza? Você não parece muito legal.
Eu me levantei. Não. Não estava legal. Tinha sido um dia estranho e cheio de mortes e preocupações, não era nada legal saber que eu tinha matado alguém.
-Quer ir dar uma volta e esfriar a cabeça?
-Quero.
Lucas foi me guiando ate pegar uma lanterna em qualquer lugar, nos afastamos para que não acordássemos ninguém. Ainda assim não me parecia seguro falar o que estava me incomodando.
-Melhor agora?
Ele me perguntou, eu suspirei. Não iria melhorar até que eu voltasse pra minha vida normal.
-Como você aguenta? Eu digo, toda aquela história de que você matou por acidente a garota dos seus sonhos e fugiu, eu sei que não faz muito tempo mas eu... Eu não aguento.
Ele me olhou.
-Eu também não. Antes de dormir me culpo por cada movimento que eu fiz naquela noite. Se eu não tivesse me distraído ela estaria viva, e eu não teria que viver com a culpa. Mas por que isso agora? porque você não aguenta, ou melhor, o que você não aguenta.
-Nada, quer dizer, tudo...
- O que aconteceu naquela sala quando os zumbis invadiram, eu vi que você estava chorando.
Eu suspirei, não queria contar mas se guardasse talvez nunca mais  poderia dormir.
-Eu matei ele.
A voz saiu tão baixa que até eu me estranhei. Mas ele entendeu, claro que entendeu, porque logo em seguida ele me abraçou, rapidamente e depois me olhou.
-Eu sinto muito.
E então eu contei pra ele, o que o Vinny havia dito, o que eu respondi, como eu me senti depois que a arma disparou. Eu estava chorando, estava triste, sobrecarregada. Não sou a pessoa certa pra guiar todo mundo pra essa praia. Foi exatamente o que eu falei.
-Olha, eu sei que é difícil , principalmente com todo esse peso sobre você. mas olha pra nós, pra todos nós, estamos vivos e bem perto de chegar não é? Isso não seria possível sem você, ou sem o seu plano maluco de fugir, ou sem a sua capacidade de arrumar as coisas. A gente não estaria aqui se não fosse por você.
No fundo ele tinha razão, não estaríamos aqui. Nem tão perto, provavelmente estaríamos mortos, ou transformados em zumbis. Ou em algum canto escuro com medo de morrer. Mas estamos aqui, no meio da floresta, dormindo quase que tranquilamente esperando o dia chegar para poder seguir com o plano. E o dia realmente chegou. Depois de chamar e Phe e voltar a dormir o sol logo nasceu, resolvi andar por aí já que não voltaria a dormir. Acabei por chegar onde o riacho formava uma poça. o cheiro de sangue havia voltado, agora mais forte, eu, curiosa como sempre, segui o cheiro que de sangue se transformou em algo podre e nojento, havia uma uma cerca que me separava de um barranco. lá em baixo, bem lá em baixo haviam centenas, talvez milhares de zumbis. Mais ao longe tinha uma casinha de montanha, daquelas com porta de madeira e chaminé. Acontece que os zumbis estavam presos numa grade que separavam a casinha do campo. E a chaminé da casinha, soltava fumaça sem parar.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Narração- Larissa Beulke

* 2 meses antes do apocalipse zumbi* ( Parte Final)
-Então a senhorita sabe que, pelo motivo aqui tratado teremos que remover a sua licença para fazer cirurgias experimentais e reprová-la na matéria, voltando-a para o primeiro semestre da faculdade.
-Eu entendo e aceito as condições.
-Senhorita Beulke, você deve saber que isso acarreta todos os males possíveis para você, e muitas consequências viram com a sua decisão. Os pais do garoto querem abrir um processo contra você, a condição para que eles não abram é a sua total expulsão da faculdade. Então você tem duas opções, desistir da faculdade e tentar outro vestibular no ano que vem, ou acarretar as consequências e aceitar o processo, voltando a cursar a faculdade de onde parou, tendo que fazer um trabalho como reposição da nota.
-Eu...
O que eu deveria dizer? Que aceito levar um processo com apenas 19 anos de idade? Ou que desisto do meu grande sonho de me formar na faculdade? As paredes claras da pequena sala da diretora geral da minha faculdade se fechavam contra mim. Eu não tinha escolha, não agora, abalada, chocada e confusa.
-Eu preciso pensar... Te trago uma resposta na segunda feira.
-Eu entendo a sua situação, querida. Para todos nós o primeiro erro sempre vem.
Ela pegou minha tremula mão que repousava em cima da sua mesa de mármore.
-Eu sinto tanto por você querida, sinto que isso tenha lhe ocorrido com tanta pouca idade. Pense muito bem em sua decisão, volta quando tiver certeza está bem?
-Sim senhora.
E então eu saí da sala, peguei o metrô que me deixava á poucos quarteirões de casa e considerei as opções. Quando cheguei expliquei tudo aos meus pais.
-Filha, você não pode desistir da sua faculdade, você trabalhou tanto pra isso!
-Eu sei pai mas...
-E vamos te ajudar com o que for preciso se aquela família seguir com aquela ideia.
-Sim, mas eu não tenho certeza sobre o que fazer. Eu vou tomar um banho, dormir um pouco e amanha eu falo sobre isso.
Foi uma noite cheia de pesadelos, o corpo do menino tremendo e depois totalmente parado, o rosto pálido da diretora, as enfermeiras incompetentes que me deixaram sozinha. Quando eu acordei já havia tomado minha decisão, eu não ia desistir. Não ia mesmo.
* 5 semanas depois *
-Eu marco um recesso para daqui á duas horas.
A juíza bateu o martelo e adiou o resto da "reunião" para podermos pensar. A família tinha toda a razão, eu fui a culpada pela morte do filho deles, não havia dinheiro ou qualquer outra coisa que pudesse trazê-lo á vida. Eu estava andando pelos corredores da corte onde o julgamento estava acontecendo quando ouvi vozes vindo de uma pequena sala.
-Poisé, a metidinha daquela doutorazinha não sabe o que vem por aí.
Uma risada.
-Ela nem imagina que aquilo tudo era uma cirurgia falsa, com um corpo falso e uma família falsa.
Outra risada.
-E esse processo que ela tá levando vai deixar ela bem longe da faculdade,  aquela enxerida!
Deus! Como assim! Eu fiquei em choque, ouvi minha mãe eu meu pai me chamando, andei até eles.
-Filha, o que você vai fazer?
-Não esquenta mãe, mentirosos são descobertos muito facilmente nas mãos de alguém sem culpa.
Eu tinha um plano, só tinha que falar com a minha advogada. Assim que expliquei para Letícia Mendes o que havia acontecido ela quase pulou de alegria.
-Bem, então o seu caso é muito fácil. Se elas estavam comentando sobre isso aqui, e agora, quer dizer que não conseguem guardar um segredo por muito tempo. A juíza voltou e reiniciou o caso, minha advogada não me explicou o que fazer, disse que tinha tudo em mãos.
-Eu chamo, a  clínica geral responsável no dia, Candice Camargo, para depor.
Primeiro ela ficou surpresa, depois ajeitou os óculos e jogou o longo cabelo ruivo para trás. Andou até o lugar e jurou falar somente a verdade perante os júris.
-Então doutora, é verdade que era você a responsável pelo local?
-Sim.
-E então, de acordo com as testemunhas você saiu da sala em meio a cirurgia?
-Sim, estávamos em falta de um remédio na sala e precisávamos urgentemente.
-Obrigada e sem mais perguntas meritíssima.
O advogado da familia fez algumas perguntas irrelevantes para ela e depois a dispensou. Logo após isso eles me chamaram para depor, foi um choque, eu admito. Não achei que eles iriam querer ouvir o que eu tinha pra dizer.
-Sieglinder Larissa Beulke, você jura dizer a verdade, apenas a verdade e somente a verdade perante o júri?
-Eu juro.
-Prossiga.
-Bom, senhorita, Larissa, o que aconteceu no dia em questão?
-Estávamos todos na sala, eu, Candice e mais duas enfermeiras.
Eu as apontei no meio da multidão, elas não reagiram.
-Então a cirurgia começou a dar errado, não havia adrenalina na sala e Candice saiu seguida pelas enfermeiras, me deixando sozinha com a criança. Eu achei um frasco do remédio na prateleira e de acordo com as anotações das enfermeiras apliquei o remédio, o corpo do menino entrou em colapso e depois o coração dele parou de bater. Candice e as enfermeiras voltaram e me culparam pela morte do garoto, designando a mim a tarefa de contar aos pais a notícia. Foi isso.
-Sim, sem mais perguntas meritíssimo.
A minha advogada me parabenizou pela calma com que eu falei, e depois chamou a enfermaira Beatrice Klain para depor. Ela ficou tão branca e tão nervosa que quase não conseguiu balbucear um sim perante o julgamento. A parte seguinte foi tão rápida que eu não consegui distinguir as perguntas da advogada, ela apenas ia falando e enquanto ela falava a enfermeira ficava mais nervosa e  então ela falou.
-Não! Não foi isso que aconteceu! Era tudo uma farsa, ainda é! O corpo era falso, a operação falsa e a família não é nem de verdade! A gente só queria tirar essa enxerida do caminho, ela viu o que não devia e então tinha que ser punida. Pronto! Chega de mentiras!
A juíza ficou surpresa.
-Bom, então eu dou o ganho de causa para Sieglinder Talita Beulke, eu a declaro inocente.
Comemoramos, é claro, dois dias depois eu ainda não havia voltado para a faculdade. Estava pensando em desistir, porque não seria a primeira vez que eu veria algo estranho como a Loura de óculos interrompendo a nossa aula, e essa com certeza não era a pior coisa que eles poderiam fazer. nas semanas seguintes um amigo de infância do Phe foi preso, colocaram uma enorme matéria sobre isso nos jornais, falaram disso por semanas. O jovem brilhante que enlouqueceu. Não imaginávamos que ele havia ficado tão louco á ponto de sequestrar a minha irmã.
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Cara, eu me senti na obrigação de responder ao comentário da Mari porque ela foi muito fofa e eu to falando sério. Muito obrigada mesmo linda *-*
( Pra Tatz não ficar com ciúme : Se você não postar eu vou entrar em greve u-u hahahahaah )

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Narração- Phelipe Braga

Depois que a Lala conseguiu salvar a Bia, tudo ficou melhor. não que os acontecimentos recentes fossem motivo de alegria, mas podíamos sorrir por algum tempo antes que algum zumbi faminto corresse atrás de nós.
-Lala? A gente podia parar um pouco pra descansar assim você dava uma olhada na Bia e tudo. A gente já passou pelos túneis, eu preciso dela acordada desse ponto.
-Tudo bem, eu quero mesmo esticar as pernas.
Saímos do carro e montamos um pequeno acampamento, todos ao redor de uma fogueira, comendo e rindo. Talvez fosse a cena mais feliz que eu tenha visto nesses últimos meses.
 * 3 meses antes do apocalipse zumbi *
-Ela ja chegou?
-Não ! Ela devia estar em casa faz uns 20 minutos.
- Calma Lala, ela deve ter se atrasado na escola.
-Ela não atende o celular. Onde ela deve estar?
Assim que a Dona Denise disse isso o telefone tocou. O senhor Beulke, pai das meninas, atendeu.
-Tudo bem.
Uma única resposta, algo estava errado.
-Ela foi sequestrada. Nossa filha foi sequestrada.
Ele estava em choque, tanto que a Lala foi buscar alguma coisa na cozinha. Pouco tempo depois ele nos explicou, o cara queria 1milhão e passar pelo firewall da maior empresa do mundo. Ele era louco. E então eu me lembrei, na escola, havia um amigo meu que tinha uma idéia um tanto louca. Ele queria se formar em ciência biológica, criar um antídoto para qualquer coisa e ficar muito rico. Ele não batia muito bem da cabeça, sempre todo retraído e estranho. Eu nunca o levei a sério até que ele foi preso por entrar no banco de dados da Medi-Com, ele ficou preso até mês passado eu acho.
Sexta passou muito devagar, Denise, o Beulke e a Lala ficavam aflitos, choravam e esperavam pela chegada da polícia. Depois que eles foram embora eu decidi ir também, não havia muito o que eu podia fazer se não lembrar das estranhas palavras de Jason, meu amigo do colégio.
"Eu tenho essa ideia Braga, eu vou ficar rico!" Essas palavras ficaram na minha mente até que eu caí no sono. No sábado, os policiais esperaram uma ligação que não veio. Finalmente no Domingo eu pude acompanhá-los até um galpão velho onde acharam ele. Jason Mueller. Ele havia sequestrado a Tatz e a Iara, louco por vingança, antes de fugir ele olhou para mim e disse :" Isso ainda não acabou Braga, eu vou revolucionar o mundo!" E então ele correu.
-Tudo bem?
A Lala me tirou dos pensamentos.
-Tudo sim, eu ainda não acredito que escondemos tudo da Bia, ela precisava saber.
-Phe, na época em que tudo aconteceu ela tinha acabado de sair do castigo por ser presa, ainda estava tentando se recuperar da raiva que ela sentida daquele menino. Não era uma boa hora pra contar que a melhor amiga dela tinha side sequestrada e que o cara tava solto.
-Eu sei, mas porque a gente mentiu pra ela dizendo que a Tatz tinha passado mal, e que a Iara estava gripada. A gente devia ter dito a verdade, mesmo depois de tudo.
-Porque você tá se importando com isso agora bobinho?
Ela me beijou e fomos comer. Depois colocamos a Bia no banco de trás do carro para que a Lala pudesse ver melhor o ferimento.
-É, não parece uma boa ideia estragar tudo isso agora.
Comemos, rimos e concordamos em manter segredo sobre o incidente do começo do ano. Quando as meninas começaram a brincar de lutinha.
-Qual é Tatz, você é a mais fraca de todos nós. Só ganha porque tem essas unhas de Zé do caixão.
A Iara mostrou a lingua. E elas começaram a se empurrar até que a Tatz bateu no vidro e a Bia gritou, altamente e tão agudo que meus ouvidos doeram. Ajudamos ela a sair do carro, a Tatz sorriu, todos a saudaram felizes por ela estar viva.

-Pessoal, eu acho que seria melhor a gente ir.
Lala veio falar comigo.
-Você vai querer comer primeiro, deve estar muito fraca, perdeu bastante sangue.
-Eu não acho que tenhamos tempo para isso.
Assim que ela disse isso, um bando enorme de zumbis nos alcançou, correndo, espumando e sedentos por nosso sangue. Tentamos encaixar a Bia no banco de trás mas a cada tentativa era um grito dela e uma aproximação dos zumbis.
-Você vai ter que ir na caçamba. sinto muito.
-Que seja! Só tire a gente daqui.
Colocamos ela lá atrás com os amigos da Bia e entramos no carro. Eu tentei girar a chave, uma , duas , três vezes, a chave travou.
-Phe! Tira a gente daqui!
-A chave emperrou!
-Phe!
-Eu sei fazer ligação direta.
- O quê?!
O menino estranho falou pela primeira vez, em meio ao carro apertado eu troquei de lugar com ele, assim que o menino juntou os fios o carro pegou e aceleramos na estrada. Peguei a mão da Lala e adormecemos grande parte do caminho.


sábado, 24 de março de 2012

Enquanto Eu Estiver Viva.

Eu acordei. Ainda era madrugada, o céu escuro já não possuía estrelas. O que aconteceu? Eu estava deitada no capô do carro, me levantei sem fazer barulho, peguei a arma que esteve do meu lado o tempo todo. Estava tudo ensombreado. Não estava escuro mas não estava totalmente claro. Eu não voltaria a dormir tão cedo, resolvi andar por aí. Em meio á carros desmontados, pessoas dormindo e um céu estranho estava eu, sozinha e com insônia. Eu estava andando, nem sei onde parei. Era uma porta de ferro, estava entreaberta. Claro que eu entrei.

-Droga.
Havia alguém la dentro, estava escuro.
-Oi?
A pessoa deu um pulo e derrubou algumas coisas que ecoaram no pequeno espaço.
-AI!
Eu abri a porta para que pudesse ao menos ver a sombra. Agora já estava mais claro, o Colírio estava ali com uma mochila e algumas latas.
-O que você tá fazendo?
Eu ri, ele parecia todo desajeitado e confuso.
-Eu não posso mais ficar aqui, eu sonhei com a minha irmã e percebi que fiz uma grande besteira deixando eles para trás. Eu tenho que voltar.
-Pera. Para tudo. Como assim? Mas eu achei que seus pais já tinham se tornado... O que você tá fazendo menino?
Ele suspirou.
-Eu os deixei Bia, eles estavam ocupados vendo o noticiário eu sai sem deixar nenhum bilhete. Eu não achei que ficaria tão sério assim. Eu preciso ir.
Eu segurei o braço dele.
-Você tá percebendo o que você tá fazendo? A gente sobreviveu á uma horda de zumbis em um supermercado, sobrevivemos á um ataque no meio da estrada, passamos por militares que queriam proteger essa área. Você vai acabar se matando, eu não posso deixar você fazer isso.
-Eu preciso voltar mocinha...
Ele estava realmente triste. Só me chamava de mocinha quando eu o chamava de mocinho, geralmente quando ele falava algo fora de nexo. Eu não podia deixá-lo ir. Não assim.
-Pega.
Dei a arma para ele, ele não sobreviveria sem ajuda.
-Tem um pente e meio de munição. Só usa quando for necessário. Pega também algum carro e vai seguindo as placas até a auto-estrada. Toma cuidado mocinho.
-Obrigado, Bia.
Ele me abraçou,e então saiu pela porta, estava procurando algum carro quando eu me sentei perto do portão. Havia um zumbi ali, ele estava sem braços e mancava muito, eu estava pensativa. O que faríamos? Aqui era um local seguro, não ficava muito longe do comércio mas estava bem localizado. Poderíamos ficar aqui então. Um carro sendo ligado. Colírio partiria logo e eu perderia mais um amigo.
-Abre o portão pra mim mocinha?
Ele sorriu. Eu não sorriria tão rápido assim.
-Tem certeza que sabe dirigir isso?
Ele escolheu um carro grande e espaçoso que mais parecia uma banheira. Não gosto de carros assim.
-Eu me viro.
Eu abri o portão, que fez um barulho muito alto. Em questão de segundos vários zumbis dispararam da pequena floresta á nossa frente, só podia ser brincadeira.
-Fecha o portão Bia!
-Não dá... Tá emperrado!
Ele desceu do carro e veio me ajudar, tarde demais. Eles estavam em um número muito maior do que o nosso, e só tínhamos duas armas, uma pessoa que sabia atirar e o Lucas. Eu gritei, gritei por que estava com medo de algo acontecer com eles, essa era a minha família. E eu tinha que protegê-la. Eles saíam correndo dos carros e das barracas, olhavam para nós e depois para os zumbis que se aproximavam mais e mais, corriam tentando achar um jeito de nos ajudar, as meninas vieram tentar empurrar o portão, mas era tarde. Eles haviam entrado. Haviam tiros, disparados pelo Phe e pelo Colírio, eles erravam e acertavam, Zumbis caíam e se levantavam. Eu puxei as meninas pelas mãos, corri com elas para os fundos, tentando alcançar os carros. Imagine esta cena em câmera lenta. Eu a via assim, tudo muito devagar do nosso lado e os zumbis correndo rápido demais. Gritos por toda parte, estávamos no Jipe. Ironicamente meu celular estava lá. Eu acelerei, passei por cima de ferramentas, bati em carros e atravessei o pátio no que pareceram anos. Acertei alguns zumbis e bloqueei a passagem do resto.
-Tentem achar outra saída daqui, eu vou ajudá-los.
Corri de volta para meus amigos, ou o resto deles, quando passei pelo Colírio ele me deu a arma. Eu parei.
-O que houve?
-Ajuda eles, eu sou horrível com isso.
Eu recarreguei, não seria capaz de atirar. Eu não tenho mira nenhuma. Eu corri, havia alguns zumbis aglomerados na mesma porta de ferro que o Colírio arrumava as suas coisas. Eu estava perto. perto o bastante para atirar sem errar. Um, dois,três no chão. Esse caíram e eu tinha certeza que não se levantariam mais. Abri a porta e encontrei o Vinny lá dentro, ele estava com cara de pânico e totalmente aterrorizado.
-Pegaram eles. Os desgraçados pegaram eles.
-Calma.
Eu coloquei a mão no seu braço e ele olhou para mim.
-Vamos fugir daqui Bia, eu e você. Estamos dominados não tem como escapar daqui. Á não ser por aquela porta.
Ele apontou para uma pequena e frágil porta de madeira.
-Não, eu não posso deixá-los assim, eu não sou como você.
Ele ficou nervoso.
-Eu errei uma vez Bia! Uma única vez! Você vai me culpar até quando?
-Eu não sei tá legal! Eu fui presa! Se estivéssemos num mundo normal eu nunca iria entrar numa faculdade descente ou num trabalho legal. Você errou, e o seu erro acabaria com a minha vida.
-Não estamos mais num mundo normal.
Ele pegou meu braço e começou a me levar em direção á porta.
-Me larga!
Eu peguei a arma, não era minha intenção atirar nele. Mas foi o caso, a bala acertou seu joelho e ele caiu. Ele gritou, mas parecia não desistir, ele ainda queria me arrastar com ele.
-Eu não vou com você.
-Me dá outra chance Bia.
As lágrimas começaram a cair quando eu olhei para o seu braço, havia uma mordida. Ele percebeu que eu o olhava.
-Isso não significa nada, eu ainda sou eu mesmo.
-Não por muito tempo.
Atirei nele. Não pense que foi á sangue frio. Eu matei o único menino que já amei. Eu o matei enquanto as lágrimas caíam e minhas mãos tremiam. Eu o matei mas não pensei que foi fácil, eu estava pensando no que seria depois. Eu não tinha escolha. Larguei a arma e caí de joelhos chorando ao lado do corpo. Alguém entrou e me puxou, era a Pammy. Ela me ajudou a levantar enquanto eu me recompunha.
-Eles precisam de você.
Ela repetia isso várias vezes enquanto eu olhava para o corpo inerte do garoto que eu acabara de matar. Ela o olhou, viu o sangue, a mordida e a bala.
-Você fez o que precisava, vamos. Eles querem falar com você.
Saindo da salinha eu me deparei com sangue. Muito sangue. No chão, nos carros. Em todo o lugar. Havia corpos também. Zumbis e os amigos do Vinny estavam largados no chão. Era uma cena deprimente de se ver. felizmente, no meu grupo, todos estavam vivos.
-Olha ela aí!
A Tatz veio do meu lado.
-Achei que você tinha sido mordida,  que aconteceu?
-Longa história.
Eu sequei as lágrimas e olhei para o pessoal. Anne, Milly, Jamille, Iara,Lala, Pammy, Tatz, Colírio, Gabe, Phe e Lucas. Faltava alguém. Milly estava chorando e então eu vi o corpo do namorado dela, três balas e uma mordida. Isso não ia mais acontecer.
-Vamos sair agora daqui.
Eles entraram nos carros, alguns ainda pararam para recolher as coisas e voltar rapidamente. Partiríamos hoje. Eu estava no banco de trás do Jipe, sozinha. Não prestei atenção para ver quem dirigia, eu estava fazendo uma promessa. Ninguém mais iria morrer enquanto eu estiver viva.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Um ultimo encontro Parte II

-Eu te conheci antes de tudo isso, foi assim que eu soube.
Sabe quando você dá de cara com uma porta de vidro? Foi o que eu senti.
-Como assim. Ele não estava não estava inseguro, travando ou com dificuldade de explicar como ele me conhecia. Não tinha lugar algum que eu poderia ter conhecido o Lucas.
Ele me encarava.
-Me explica, por favor. Eu realmente não lembro.
Ele suspirou.
-Eu imaginei que você diria isso. Você se mudou para um apartamento na Pitangueiras, ou sua avó. Sei lá. Eu tinha um apartamento lá também, eu vía você com os meninos, mas nunca tive chance de falar com você até que...
-O dia em que jogamos verdade ou desafio. Minha voz era um sussurro, não podia ser o mesmo menino.
Então eu me lembrei.
Faltava uma semana para o ano novo, eu estava jogando cartas com a galera do condomínio.
-Truco!
-Não é justo, eu não sei como esse jogo funciona.
Eu não sabia mesmo como jogar essa porcaria de jogo.
-Por que não jogamos 21?
Milena era a minha amiga do condomínio, mas nada me faria esquecer o velho prédio. Ele estava com as minhas lembranças, a minha infância. Minha vó mudou para cá porque estava com medo da criminalidade na Enseada, só que ela acha que um morrinho vai separar tudo isso.
-Por que vocês jogam então? Vão brincar de fofocar, sei lá.
Victor era o metido do prédio, morava aqui desde os 8 anos e achava que mandava em tudo.
-O baralho é meu seu mané. Vocês só jogam se eu quiser.
Eu mostrei a lingua para ele. Ele bufou.
-Só porque minha mãe não gosta que eu desça as coisas de casa.
E olhei para o céu, como de costume todo estrelado. Essa era a minha ilha, o meu paraíso.
-Vou beber água. Sem olhar minhas cartas em!
Eu me levantei, o bebedouro não era tão longe, mas ficava num canto escuro. Era sinistro, se a noite não estivesse tão bonita eu poderia contar as antigas lendas do meu velho condô. Eu ouvi passos, não que eu estivesse assustada, desde que pisei aqui os meninos tentam me assustar.
-Saiba que isso não vai funcionar meninos, eu sei todas as regras de terror que vocês nunca vão decorar.
Os passos continuavam vindo mais perto.
-Já sei, vocês tem alguma lanterna aí?
Eu estava rindo. Era patético.
-Oi?
A voz era estranha, rouca. Como se não fosse usada a pouco tempo.
-Quem tá aí?
Não que eu estivesse assustada mas não era ninguém que eu conhecesse então era meio estranho.
O menino chegou mais perto, estava a alguns centímetros de mim.
-Nossa como você tá aguentando com esse moletom?
Ele riu.
-To acostumado.
Eu estava de shorts e uma regata, estava quase pulando na piscina de tanto calor e o menino estava de calça jeans e moletom com o capuz sobre o rosto. Ele era estranho.
-Bia!
Gritaram meu nome e Milena estava lá com os meninos. Pedro, Matheus e Gabriel desceram também.
-Vamos jogar Verdade ou Desafio? Eles que deram a idéia. Ah! Oi Estranho.
Ela zombava do menino á minha frente, sem ao menos conhecê-lo.
-Vamos?
-Tá.
Eu olhei par ao menino.
-Quer vir?
Ele se assustou, deu um passo para trás. Milena puxou meu braço e sussurrou no meu ouvido.
-Cara, esse menino é muito estranho, nunca disse uma única palavra toda vez que vem pra cá. Você não vai convidar ele, vai?
-Vou sim.
Eu andei até o menino e o puxei pela mão, ele estava frio. Estranho.
-Bom, já sabem né? Quem não aceitar o desafio vai cumprir algo bem pior.
O jogo continuou até todo mundo cansar e subir. Eu fiquei com o menino estranho até o silêncio tomar conta de tudo.
-Eu te desafio a me contar um plano maluco seu.
Eu sorri e contei para ele sobre meu plano sobre o apocalipse zumbi, ele riu.
-Isso sim é maluco.
Ele me encarou por alguns minutos, o rosto dele estava escuro pela sombra
do capuz.
-TIRA  esse capuz menino!
-Não.
Ele riu. Eu estava prestes a arrancar aquele negócio da cabeça dele quando eu ouço um Bia estridente.
-SOBE AGORA!
-Desculpa.
 Eu disse para o menino e sai correndo antes que minha mãe me matasse.
Eu nunca mais vi aquele menino. E agora o reencontrei.
-Tudo bem?
O Lucas pegou a minha mão.
-Você é aquele menino, o do condomínio. Porque você não me falou antes?
Ele colocou a mão na cabeça.
-Eu não sabia se você ia lembrar de mim.
Ele deu um riso tímido tão fofo.
Eu ouvi um barulho.
-Eu tenho que ir.
Ele pegou minha mão.
-Eu te vejo amanhã.
Quando eu saí o Vinicius estava olhando a cena lá dentro. Foi estranho, mas eu não me senti mal.
Eu deitei no capô do carro, estava cansada demais para procurar o meu celular, cansada demais para dar atenção para o Vinicius e cansada demais para tentar lembrar outra ocasião onde eu tenha visto o Lucas. Eu estava cansada. E eu adormeci com o céu estrelado do meu paraíso e com tantas coisas na cabeça que eu tenho preguiça até de contar.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Um último encontro.

Já era noite. Não estava escuro, estranho. Vai ver tinha estrelas. Não. O céu estava claro e era noite, mas havia algo mais. Talvez seja uma aurora. Talvez signifique que o nosso paraíso está perto.Eu vi algo, mas o que era? Eu não me lembro, era apenas uma sombra. Alguém mexeu em mim e eu acordei. Não me lembro de ter dormido.
-Bia?
A Talita estava me cutucando na perna. Eu estava no Jipe. Quando foi que eu entrei no Jipe?
-Oi?
-Eles querem saber se você vai querer dormir em algum dos carros ou nas barracas que trouxemos, pediram pra eu te acordar.
-Tatz?
-Eu.
-Como eu vim parar no carro.
-Bom, depois que você saiu da oficina você comeu metade de um pacote de bolachas e disse que não tava se sentindo bem. Veio pro Jipe e dormiu.
-Tá, eu perdi algo.
Ela olhou para o lado.
-Me diz.
-Sabe "o" menino?
-Infelizmente sim.
Quando dizíamos "o" menino queríamos dizer o Vinicius.
-Ele tá lá fora, disse que não vai sair até falar com você.
-Tem grades em volta da loja, e um portão de ferro super gigante. Como ele entrou?
-É que a gente tinha deixado os portões abertos para ver se os carros estavam funcionando. Quando eles voltaram a gente esqueceu dos portões, daí duas horas depois eles chegaram com três carros perguntando por você, estão de greve até agora lá.
Ai Deus, o que e vou fazer, se eles ficarem tem uma grande chance de algum deles apanhar ou por mim, pela Jamille ou pela Anne. Se eu mandá-los embora eles podem morrer, ou pior, nos seguir.
-Eu preciso de um tempo pra pensar, não diz nada pra ele, para o pessoal diga que eu to bem aqui no carro, eles podem se ajeitar lá.
-Tudo bem.
Ela saiu, e eu fiquei sozinha. Dei uma olhada no Jipe, estava muito bom. As grades estavam em todas as janelas, haviam pedaços afiados de ferro nas laterais. Um verdadeiro carro de apocalipse, acho que os outros ficaram tão bons quanto esse. Tá. Eu tenho uma difícil decisão pra tomar. Eu fiquei ali, brisando, lembrando e me matando com medo de fazer algo errado. Depois de algum tempo, eu já estava entediada, mas esperava que ele também estivesse. Eu não pedi para ele voltar, eu não pedi para que ele falasse comigo, não depois do dia em que eu fui presa. Então ele que esperasse, mas eu estava exausta e queria que esse teatro acabasse logo.
Assim que eu apareci, ele se endireitou rapidamente. O pessoal cochichava e olhava para mim, provavelmente se perguntando sobre a minha decisão. Vinicius ia caminhar na minha direção mas eu apontei para ele e em seguida para um ponto distante onde ninguém poderia nos ouvir. Eu não estava pronta para enfrentá-lo, eu nunca estive. Seria mais difícil agora que eu tinha nossas vidas em mãos.
-Eu só queria falar que senti...
Eu o interrompi.
-Antes que você fale algo que não vai se lembrar daqui á duas horas, eu quero que saiba que demorou muito para eu me decidir, eu levei em conta coisas que eu desejei ter esquecido e você tem que agradecer por eu ter um bom coração.
Um pequena pausa, meu coração está acelerado. Ele sustenta o meu olhar e eu o desvio olhando para o céu. Por que diabos eu tinha que ser tão fraca quando tenho que ser forte?
-Você vai ficar aqui, só por essa noite. Eu não quero você e seus amigos perto da Anne ou da Jamille nem de nenhuma outra pessoa.
-Eu preciso falar com você.
-Você tem cinco minutos.
-Porque você tá assim? Depois daquele dia eu não pude mais falar com você, minha mãe descobriu sobre a festa, tirou tudo o que eu usava para me comunicar. Eu fiquei de castigo todo o tempo que não falei com você, eu senti sua falta. De verdade. Mas quando eu saí do castigo você não respondia as mensagens, nem me atendia e eu não te encontrava on line em nenhum lugar. Quando essa loucura começou eu pensei tanto em você, lembrei que você disse uma vez que seu plano era ir pra cá. Eu estava em Santos no campeonato de kart e lembrei de você, a corrida inteira. Eu te procurei na casa da sua avó e não te achei, daí entramos no mercado e eu te encontrei. Eu fiquei muito feliz em te ver, mas você estava tão fria e parecia nem se lembrar de mim. Eu queria te explicar. Então eu segui você e os seus amigos.
Porque meu Deus! Porque diabos ele tem que sentir minha falta quando eu estou tão bem, porque eu não consigo esquecer de uma vez o meu passado?
-Eu... Porque você... Mas...
Eu não achava palavras, não achava a minha voz eu não achava nada. Eu estava perdida. Estava sendo atacada por várias lembranças, as lágrimas começaram a cair.
-Eu não vou estar aqui o tempo todo. Você sabe disso, eu não vou poder esperar você sentir minha falta pra sentir muito. Eu sinto muito. Sinto por ter ficado meses sem notícias suas e ainda cair na mesma conversa.
E então antes que eu desabasse ainda mais eu disse as últimas palavras que significariam algo.
-Você pode ficar aqui esta noite, mas eu e você, acabamos aqui.
E então eu saí. Andei sem olhar para trás. Ele ficou lá, eu acho. Alguns passos depois eu estava quase inteira.   O pessoal estava sentado, alguns estirados no chão entre carros, pessoas e comidas.
-Tudo bem?
A Tatz estava em pé, como sempre a do contra.
-Tô legal, já viram onde vocês vão se arrumar?
-Eu queria dormir no Jipe.
Ela fez beicinho.
-Você sabe que isso não funciona comigo, mas eu to afim de ver as estrelas então é todo seu.
Ela deu pulinhos e foi pegar um travesseiro. Eu estava sozinha. Não completamente porquê haviam pessoas perto de mim, e eu não ousei olhar para trás mesmo sabendo que certo alguém estaria ali. Mas eu estava sozinha porque ninguém entenderia, e ninguém iria saber o que estava acontecendo dentro de mim. Que horas são? Esse pensamento aleatório me fez procurar nos bolsos do meu shorts para encontrar meu celular. não estava ali. Talvez no Jipe? Eu andei até a oficina e encontrei a Tatz se ajeitando no banco traseiro.
-Seria bem mais fácil se você deitasse os bancos da frente...
-Eu to legal aqui.
-Ei, você viu meu celular aí?
Ela olhou nos bancos.
-Não, talvez esteja na Hilux ou na bancada da oficina.
-Tá, boa noite Tatz.
-Boa noite Bia.
Eu olhei na bancada e não havia nada com botões e cor de rosa. Só ferrugem e ferramentas. Talvez esteja na Hilux... Eu estava quase saindo da oficina quando algo puxou meu braço direito.
-Deus do céu!
-Desculpa.
Lucas estava com a mão no meu braço, ele estava com um olhar sério.
-Você não se cansa de aparecer desse jeito?
Ele sorriu.
-Desculpa.
-Não foi nada. Aconteceu alguma coisa?
Ele olhou para a mão que segurava meu pulso e depois o soltou.
-Eu queria saber.... Eu queria saber quem é o menino de preto lá fora.
Eu sabia que uma hora ele ia perguntar. Eu respirei fundo. Mas foi bom ele ter perguntado, assim eu lembrei de todas as perguntas duvidosas que eu não fiz.
-Você lembra que eu te contei que eu fui presa?
Ele assentiu.
-Então, eu omiti uma pequena parte da história. Eu na verdade fui presa por culpa do menino de preto.
Ele continuou me olhando, esperando a continuação.
-Bom, eu estava com eles e eles estavam bebendo, fumando e dirigindo. A polícia chegou, todo mundo correu e ele ia pular o muro quando eu me dei conta que poderia sobrar para mim. Só que três dias antes eu me machuquei jogando futebol e por isso não podia pular nada. Então ao invés de me ajudar ele me soltou e eu caí. A polícia me pegou e eu fui presa por não denunciar nada.
-Uau.
-Pois é.
Alguns minutos em silêncio. Como eu perguntaria isso?
-Lucas?
Ele me olhou.
-Como você sabia o caminho para a praia?
-Como assim?
-Ontem, quando você dirigiu até a praia da Enseada. Como você sabia ao caminho até o Guarujá? Como você chegou na Enseada? Como você conhece tão bem a região e o mais importante, como você sabe o nome da praia que estamos indo se ninguém sabe além de mim?
Ele ficou quieto por alguns instantes. Eu achei que ele não iria me responder, mas o que ele disse me surpreendeu mais ainda.
-Eu te conheci antes de tudo isso, foi assim que eu soube.